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A enteogenia e o materialismo trivial

Atualizado: Mai 28


A enteogenia explícita no título faz referência aos enteógenos, que é um termo utilizado pela ciência moderna fazendo alusão a elementos causadores de um um estado peculiar da mente, chamado ‘estado não ordinário’ (conforme descrito no dicionário de Oxford), onde nele é capaz de ser atingido um nível, digamos, mais amplo da consciência. Porém os enteógenos não estão ligados somente ao estado ‘alterado’ da mente, mas também ao seu uso em intuitos religiosos ou espirituais. Enteógeno é derivado do grego, que significa literalmente ‘manifestação interior do divino’, oriundo de um termo obsoleto que tem a mesma raiz da palavra ‘entusiasmo’. E esta manifestação - que leva a um estado não ordinário ampliado da mente - acontece a partir do uso de um certo tipo de substâncias químicas geralmente de origem vegetal (porém muitas vezes originando-se também dos fungos), que são peculiarmente capazes de induzir a mente humana para este estado não ordinário, ou extraordinário. [Alguns animais também possuem essas substâncias em seu organismo, como o veneno e a pele do sapo Bufos alvarius e algumas espécies de serpentes e lagartos, e talvez os próprios seres humanos produzindo normalmente em baixa escala na glândula pineal.]

Os psicodélicos, cujos clássicos são LSD, psilocibina (cogumelos), mescalina (cactos) e DMT (plantas como a Ayahuasca e Peiote, venenos, e talvez na glândula pineal), fazem parte da gama dos elementos enteógenos, utilizados milenarmente pela humanidade para fins evolutivos - espirituais -, incluídos vastamente em suas diferentes culturas. Outra planta enteógena extremamente importante é a Cannabis (principalmente a Cannabis sativa) ou maconha, que igualmente tem seu uso marcado pelas gerações milenares em busca de evolução espiritual e medicinal. Todas essas substâncias encontradas na natureza, em diversas áreas diferentes, foram e são utilizadas para evoluir a espiritualidade da humanidade como um todo.

Porém, olhando para a atualidade, a contemporânea sociedade ocidental em que vivemos passa por sérios problemas com a sua espiritualidade. Posso observar que essa sociedade, numa perspectiva espiritualista, se dividiu em três setores diferentes segregando os indivíduos por seus interesses - materiais - prioritários. O primeiro grupo são os teístas, onde se encontram vastas religiões que buscando - de suas diferentes formas - desenvolver a espiritualidade dos indivíduos, com suas respostas para suas questões mais profundas. O segundo são os agnósticos, que não possuem certezas sobre sua espiritualidade, não possuem respostas, portanto partem a buscar, estudar e tentar conhecer a partir de sua ignorância. E por final existem os ateístas, que abdicaram de sua espiritualidade para dar espaço ao seu conhecimento - científico - que nem sempre traz as respostas, mas que de vez em quando traz e isso é o suficiente.

Refletindo sobre isso, observo que nesse contexto os ateístas são os mais distantes de sua espiritualidade, talvez possam ser considerados ‘pobres coitados’ em profunda desvantagem (e alguns reconhecem isso). Os agnósticos estão vivendo suas vidas duvidosas marcadas pelo trabalho excessivo de ir em busca de uma resposta inexistente, que talvez não lhes dê espaço - e tempo - para desenvolver sua espiritualidade. E os religiosos, que são os únicos que talvez têm a chance de fazê-lo, vivem em suas religiões extremamente rígidas, onde o indivíduos precisam devotar suas vidas, e aceitar a ignorância intelectual, o que pra muitos outros indivíduos pode ser considerado uma ofensa - de forma natural -, pois seu conhecimento é tudo o que tem.

Nesse contexto social - contemporâneo e ocidental - as pessoas estão extremamente divididas, principalmente por seus interesses prioritários, que ao meu ver são totalmente materiais. Onde chegamos a um conceito em que as sociedades incluídas nesse contexto são baseadas: o materialismo. Todas as pessoas que vivem nessas sociedades basicamente têm a tendência de priorizar o material, inclusive acima do espiritual (talvez eu relacione isso com a ‘muleta’ de Nietzsche). Os ateístas se firmam (ou se encostam?) em seu intelecto, o seu material prioritário, onde a matéria é para a ciência sua prioridade (talvez os estudos científicos que mais significaram para a humanidade possam ser os feitos sobre o átomo). Os agnósticos utilizam como seu material prioritário a dúvida, ao qual permite suas longas jornadas de estudos sobre o mundo (talvez os agnósticos são os que mais conhecem sobre esse mundo, eles são capazes de transitar entre ciência e religião!), porém assim como os ateus para com seu intelecto eles não podem abdicar de sua dúvida, pois é tudo o que têm. Os únicos indivíduos capazes de abdicar de seu intelecto - para ir além da razão humana - e de suas dúvidas - para crer em verdades absolutas - são os teístas (marcados por crerem em seu deus). Onde observo que seu material prioritário agora se torna a fé: sua capacidade - ou faculdade mental - de ‘crer sem ver’. Porém como se trata de uma faculdade mental (que já fora até identificada pela própria ciência), também é algo material, utilizado aqui para atingir a espiritualidade. Portanto observo que todas essas pessoas estão divididas por suas propriedades materiais, e de uma perspectiva espiritualista, pelo menos, posso dizer que vivemos em sociedades extremamente materialistas.

Porém de todos esses setores diferentes, para um contexto ‘normal’ em que essas sociedades vivem, talvez os teístas - ou religiosos - são o que estão melhor utilizando de sua materialidade - cuja é inevitável e independente. Pois observo que o caminho da espiritualidade talvez seja o melhor dentre os oferecidos nesse mundo. Onde concordo que nele se absorvem valores e princípios importantes para a humanidade (como senso de unidade global, respeito e conexão com a natureza, o uso do amor para com o mundo, e outros). E portanto aqui ‘defendo’ essas religiões, pois acredito que estão fazendo uma boa ‘tentativa’. Porém, tendo que utilizar da materialidade (como livros, instituições, discursos, mandamentos e a fé), acabam por serem - as religiões - profundamente limitadas, exigindo um exercício extremamente cansativo e martirizante aos que se propõe, onde esses provavelmente irão devotar parte considerável de suas vidas. E onde também suas prioridades acabam afastando uma outra considerável parcela das sociedades, que não querem o mal, nem vivem mal, apenas não conseguem abdicar de suas prioridades. Talvez aí o monopólio da espiritualidade, concentrada pelas religiões, esteja prejudicando essas pessoas, não as permitindo acessar e desenvolver - talvez evoluir - sua espiritualidade.

E o que é essa espiritualidade? Bem, em minha observação ela tem muito a ver com um estado mais amplo da consciência, que transcende a razão do ser humano. Ora, pois a racionalidade da mente é o limite de sua espiritualidade. Os religiosos entenderam isso, e por esse motivo abdicam de sua racionalidade - sua razão, ou intelecto. Portanto para que o humano atinja sua espiritualidade é necessário transcender sua razão, acessar um estado maior, onde na ausência da razão contemple um mundo totalmente novo - um mundo espiritual. Verdadeiramente acredito que a transcendência dessa razão vem a partir da diminuição - ou supressão - dessa mesma razão. Como o Eu, essa entidade em que nos identificamos - que pode ser considerada o nosso Ego - é o responsável pela criação dessa razão (o que também já foi sugerido pela ciência, tanto em Freud quanto em pesquisas sobre os psicodélicos, por exemplo), acredito que para transcender a razão e acessar a espiritualidade, é necessário diminuir (ou eliminar) o Ego, o Eu em que o indivíduo se identifica.

No processo de eliminação do Eu, o ser assim então acessa o mundo espiritual. É o que acontece nas religiões ocidentais-contemporâneas em suas entusiasmadas orações/rezas (onde o indivíduo concentra-se tanto em sua emocionalidade, que começa a diminuir literalmente seu ego), seus agrupamentos fervorosos (onde que por efeito de comoção coletiva, os indivíduos são intensamente ‘emocionalizados’ e induzidos à diminuição do Ego) e seus discursos intensivos (onde a temática da ‘humildade’ ou ‘humilhação’ para um divino maior, também induz psicologicamente à diminuição do Ego, ou até mesmo a sua eliminação, dependendo de como o discurso irá ser absorvido). Todas essas atividades religiosas - que são extremamente exaustivas -, induzem os indivíduos a um estado extraordinário de sua consciência, tendo um efeito semelhante - porém em menor escala - aos enteógenos, onde todos estão interagindo com a mente humana para ampliar sua consciência - para um estado espiritual - através da diminuição (ou diluição) de seu Ego (talvez essas atividades sejam também consideradas enteógenas, por possivelmente interagirem com a DMT em nosso cérebro). Já está cientificamente comprovado, de que os enteógenos (em especial os psicodélicos) também diminuem o Ego, quimicamente. Porém nesse caso conseguem ir muito mais além, e atingir talvez uma total diluição do Ego humano. Já constatou-se que muitas pessoas sob efeito enteógeno experimentam de uma total e absoluta ampliação da sua consciência, e todos aparentemente concordam que o que tiveram foi especialmente espiritual. Todas essas substâncias causam isso às pessoas, e incrivelmente de forma menos exaustiva.

Os enteógenos baseiam-se apenas em atividades absolutamente naturais do ser humano. E além disso, técnicas feitas baseadas nessas experiências (como a respiração holotrópica, dentre outras), também utilizam atividades básicas, pois afinal, todas elas fazem parte de nossa natureza, seja nos vegetais, nos fungos, nos animais ao nosso redor ou em nós mesmos. Esses elementos são muito mais naturais, e surpreendentemente mais potentes, e o motivo disso é uma grande lição de vida para o mundo ocidental contemporâneo: eles não dependem de nenhum material. Os enteógenos são capazes de oferecer o mundo espiritual aos seres humanos, sem que precisem priorizar sua materialidade. As pessoas podem continuar tendo seus intelectos, dúvidas ou crenças, serem ateus, agnósticos ou teístas, pois para esse novo caminho, basta apenas comer alguns cogumelos do seu quintal, ou tomar um chá das plantas da sua floresta ao redor, ou meditar e concentrar em sua respiração (uma técnica derivada desses elementos que constituem boa parte das religiões orientais, onde também o Ego é diluído através do ‘silêncio’), ou praticar suas técnicas de respirações (que também diminuem o Ego, porém através do ‘oxigênio’). São todas atividades consideravelmente menos cansativas, muito mais aplicáveis a todos os seres humanos, em suas diferenças, em que coloca todos no mesmo patamar, até mesmo o mais cético ateu que antes - no materialismo das religiões - estava espiritualmente em desvantagem.

Portanto acredito que há uma profunda mensagem que podemos captar nesses elementos enteógenos: não precisamos da materialidade para atingir a espiritualidade. Talvez não precisemos das religiões, e nem mesmo da fé, nesse caso. Não precisamos do intelecto, e nem mesmo das dúvidas. Pois basta experimentar algo muito mais puro, sem interferências - ou prioridades -, que está disponível ao nosso redor a todo momento. E por que então ainda preferimos as religiões? Na verdade a resposta é que nem sempre preferimos (acredito que possivelmente alguns animais utilizam desses enteógenos desde muito antes de sermos homo sapiens, onde os primatas já faziam suas ‘viagens psicodélicas’, enquanto se espalhavam pelos territórios), somente nos últimos tempos as sociedades que chamo de ocidentais-contemporâneas começaram a se desviar dessa preferência, pois algo novo estava surgindo, que era tremendamente capaz de espalhar riqueza e poderes concentrados, desenvolver as sociedades de forma nunca antes vista e evoluir nosso conhecimento como espécies soberanas e racionais, ali estava surgindo o poderoso e destruidor materialismo, onde o ser humano poderá impor suas prioridades, realizar suas tarefas e desenvolver suas gerações. Não sou anti-materialista, pelo contrário, acredito que o mundo material é tão natural quanto as plantas e os fungos. Mas acredito que talvez os enteógenos, e toda a busca por uma consciência ampla sem os limites do Eu - ou Ego -, nos mostram que na busca pela espiritualidade, o material se torna trivial. A matéria já não importa, pois faz parte de uma perspectiva racional limitada ao mundo espiritual. Talvez, o mundo precise compreender que seu materialismo não basta, e que o real mundo espiritual não está em sua devoção - ou abdicação - mas sim está ao seu redor, manifestando-se no seu interior.



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